Pedagogia Waldorf, o que aprendemos com ela?

Pedagogia Waldorf permanece. Por que?

Muito se fala hoje da pedagogia Montessori e Pikler. Mas a pedagogia Waldorf resiste apesar das controvérsias. Ela parecer ter também seu espaço garantido neste novo mundo da pedagogia do século XXI. Por que?

Sem plásticos, com bonecas sem rosto, contos de fadas, alimentação orgânica e artesanal, muita arte, festas religiosas…

O que oferece esta forma de educação de tão especial?

Essa pedagogia foi criada pelo filósofo Rudolf Steiner e Emil Molt em uma antiga fábrica de cigarros para crianças carentes da região em 1919 na cidade de Stuttgart, Alemanha. Ou seja uma instituição de cunho filantrópico, que visava acolher e proporcionar educação a crianças carentes. Como seria esta educação? Steiner e amigos propuseram uma forma de educação que fosse embasada na visão do ser humano holístico, visto como um todo: uma união de mente, corpo e espírito como um ser que faz parte e convive em harmonia com a natureza. Provavelmente também com a intenção de trazer um pouco mais de igualdade social àquelas crianças e à comunidade. Os meios para a concretização deste conceito seriam altamente intuitivos e baseados em tradições culturais da época.

Penso que o segredo de Waldorf é a prioridade em pontos que tocam a essência do ser humano:

Consciência da espiritualidade do ser humano.

Ver o ser humano como um ser espiritual além do corpo físico e parte de um todo maior: a natureza. Ver a vida como um ciclo e em ciclos. Macrocosmo: a vida é um ciclo interminável e como tal deve ser respeitada. Daí o cuidado com todas as formas de vida: plantas, animais e todo seu meio. Microcosmo: a vida em si consiste em ciclos, há tempo para tudo, fases vem e vão, temos de aceitá-los e aprender com eles.

O ser humano é um aprendiz da natureza.

Estabilidade: sem modismos e em luta contra o vazio.

Dentro das fases migratórias de ciclos, o ser humano deve estar unido para proporcionar estabilidade um ao outro. A pedagogia Waldorf propõe estabilidade social.

O Social fortalece o conceito de grupo. O grupo é importante, trabalha junto, constrói junto, o grupo acolhe, apoia, oferece alento e calor humano. O convívio social é prioridade.

A vida é concreta e é hoje. A vida é a terra e o trabalho concreto hoje. Mais uma vez: estabilidade

A Arte como o meio mais forte de expressão. Muito sabiamente, este é uma das principais colunas da pedagogia Waldorf.

A arte cuida da alma, ajuda a construir o intelectual, a arte acolhe e conforta. A arte cura e embeleza a vida.

Seja a pintura, música, dança, escultura, fotografia, arquitetura, não importa – a arte é coluna sólida da filosofia educativa.

A prática da importância do desenvolvimento das mãos.

A prioridade de todo o trabalho manual, que seja como fonte de expressão ou como meio de desenvolvimento motor. Provavelmente ainda não era consciente dos fundadores, mas através deste conceito, também desenvolve-se a inteligência intelectual.

Com todos esses princípios interligados, a filosofia Waldorf permanece porque mora nestes aspectos primordiais do ser humano e os faz como prioridade inquestionável!

Sim, esta filosofia sofre bastante críticas e muitas delas provavelmente com bom embasamento.

Por exemplo, quanto à sua prática pedagógica a qual não parece não trazer inovação: as crianças continuam a ter suas aulas frontais (grupo a olhar para o professor à sua frente), a não ter um currículo intelectual individual e aprender a passos iguais. Como criar indivíduos livres, sem proporcioná-los a individualidade necessária?

A fisionomia (estados emocionais da boneca) fica por conta da criança

A visão do que é a criança, da imagem sobre a criança, também não é nem clara e nem satisfatória: a criança como ser ainda não bem formado, incompleto em busca do modelo adulto. Este tipo de visão da criança pode trazer consequências sérias para a educação quando analisada à fundo – Uma desvalorização do ser criança em comparação ao adulto, sentimentos de falta de autoconfiança e autoestima, uma linha de obediência ao invés de repeito e liberdade com responsabilidade, ou seja, pedagogia de cima para baixo.

No que se refere a aspectos sócioculturais a pedagogia oferece um modelo familiar ainda arcaico, o qual principalmente a figura da mulher fica estarrecida no conceito antigo de família burguesa do século XIX. O mesmo grupo que apoia pode excluir.

A arte é bem vinda no seu papel de equilíbrio emocional, mas não necessariamente sóciocrítica.

Também há considerações quanto a rejeição de práticas simples do nosso mundo moderno como: uso de mídias sociais, informações tecnológicas e reconhecimento de conceitos científicos inovadores. Apesar que a minha experiência pessoal é de que neste aspecto a pedagogia Waldorf tende a se transformar positivamente nos últimos anos, buscando oferecer pelo menos em termos de TI, uma educação moderna a seus alunos adolescentes.

Segundo especialistas que analisam esta pedagogia à fundo em todos estes anos, a pedagogia peca em vários aspectos, porém ela resiste e tem seu lugar por seus princípios primordiais. O quanto ela ainda permanecerá, talvez dependa da sua flexibilidade quanto à nossa nova era de conhecimentos, preservando seus princípios humanos substanciais.

Simone Clemens, Pedagoga montessoriana , Especialista em Superdotação e Supersensibilidade, fundadora da EducarSi – Alemanha

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