A criança sinesteta

Sinestesia na infância

Números e letras tem cores específicas e até personalidade.

Sabores tem formas e cores. Odores tem formas e sentimentos tem cores…

A Sinestesia é um fenômeno neurológico, o qual através de um estímulo são acionados dois ou mais sentidos simultaneamente. Trata-se de uma superconexão neural de determinados areais cerebrais.

O fenômeno é involuntário e constante (a criança não comanda e ele se apresenta o tempo todo por toda a vida) e a disposição genética tem grande influência na sua causa e ele atinge ca de 5% da população mundial.

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Já há um texto mais detalhado com o tema aqui mesmo no blog. Sinestesia 1

Na infância, a criança descobre sua sinestesia aos poucos. À princípio, a criança pensa que todas as pessoas percebem o mundo da forma como elas. Por isso, a descoberta da sua diferença sensorial acontece muitas vezes por acaso.

Um caso comum

Vejamos o caso de Maria, 6 anos, que está aprendendo as letras na escola.

Maria tem uma sinestesia Letras + Cores (grafema-cor).

A menina comenta com a professora que o “A” não é branco, mas sim azul. A professora olha estranhamente e a ignora. Maria insiste: “- É sim, o “A” é azul. ”

Os coleguinhas ao lado, começam a rir, sua melhor amiga Júlia também ri e acrescenta: “- O meu é laranja…” Maria se envergonha, não compreende nada e resolve não dizer mais nada.

Maria chega em casa e pergunta à sua mãe. Esta, que não é sinesteta e nunca ouviu falar no tema, olha muito estranhamente para Maria e diz: “- Que história é essa agora Maria! Ficou maluca é?! O A, o E o Z podem ser da cor que a gente pinta eles…eu hein, que onda é essa?”

A menina chega à seguinte conclusão: Se sua professora, seus amiguinhos da escola, sua melhor amiga Júlia e até sua mãe lhe diz que isto não existe, é porque deve ser verdade. Deve ser sua imaginação ou essa tal de loucura…ser louco não é bom…Maria ouve dizer que os loucos ficam fechados em um hospital. “Melhor não falar mais nada sobre isto com ninguém.”

Assim fica escondida e não descoberta a sinestesia de Maria por vários anos…

Consequência: Maria esforça-se para ignorar seus sentidos, pois pensa que eles são maus, não deveriam existir e talvez nem existam mesmo. Maria sente e não pode sentir…Maria tem um forte abalo na sua autoconfiança – os outros estão certos. Sua própria percepção agora é ignorada e até bloqueada.

Além disso, esta menina demora mais para perceber na íntegra a sua sinestesia (já que tenta bloqueá-la) e não desenvolve ferramentas para se utilizar positivamente do seu dom.

Na adolescência Maria vê sua sinestesia como um incômodo e a tem ainda como segredo. Somente na vida adulta é que Maria vê um vídeo , lê alguns textos e descobre que o que sente não é imaginação.

O fenômeno tem um nome e que é uma causa física mais rara, porém absolutamente normal.

Maria sente-se aliviada. No entanto, foram tantos anos de negação à esta dádiva que ela ainda não consegue sentir-se bem na sua pele e gostaria de ser como todos os outros. Afinal de contas, uma baixa autoestima não se desfaz de uma hora para outra. Esta é um conglomerado de emoções e conceitos construídos ao longo de toda uma vida. Maria necessita de tempo, muito conhecimento, reflexão e boas experiências na sua nova fase de vida como sinesteta reconhecida.

Esta narrativa traz claro um dos exemplos mais comuns da vida atual de uma pessoa sinesteta.

E poderia ser desta forma:

Poderia ter um caminho ainda mais difícil. Por exemplo: a professora de Maria poderia ter sugerido à mãe na ocasião que a levasse a um psiquiatra. O médico não tendo o conhecimento sobre sinestesia e trabalhando com alguns esquizofrênicos, pensa que a menina pode ter tendências para alucinação e receitar-lhe remédios psicofármacos. Os remédios não retiram a sinestesia de Maria em nada, somente prejudicam e muito o desenvolvimento cognitivo de seu cérebro.

Não, não é exagero. Infelizmente muitos psicólogos e até psiquiatras ainda não tem conhecimento sobre o fenômeno da sinestesia e confundem-no com sintomas psicóticos.

Como seria uma descoberta positiva ?

Maria deveria poder falar de suas sensações sem ser logo ridicularizada pelos adultos de sua confiança. Os adultos deveria primeiro pesquisar um pouco para ver se tais percepções poderiam ser reais de alguma forma ou mesmo somente imaginação. Se os adultos fossem primeiro buscar explicações na ciência para ver se tem fundamento ou não, descobririam que o que Maria sentia pudesse ser um fenômeno chamado sinestesia. Poderiam levá-la a um médico, que tivesse conhecimento no fato. Também os médicos desconhecem muitas coisas, ninguém sabe tudo. Ao final, Maria teria descoberto sua sinestesia de forma suave, positiva, mantendo sua autoestima intacta.

Tenha sempre em mente

Sinestesia nada tem a ver com imaginação ou alucinações e impressões advindas de doenças ou transtornos psíquicos e nem tem a ver com as sensações ou alucinações causadas pela ingestão de drogas. O sinesteta vive sua aptidão consciente, de forma duradoura e em pleno domínio de toda sua capacidade mental e sensorial.

Há exames de ressonância magnética que podem provar a sinestesia.

O fenômeno da sinestesia vem acompanhado por uma grande sensibilidade geral do sistema nervoso, o que torna a pessoa especialmente sensível de forma ampla na sua personalidade. Leia mais sobre PAS Pessoas Altamente Sensíveis ou Pessoas Supersensíveis.

Como agir?

  1. Aja com naturalidade com a sua criança sinesteta e informe-se sobre o tema
  2. Se você tiver possibilidade de ir a um neurologista que tenha conhecimento sobre sinestesia, ótimo. Se não houver este profissional na sua cidade ou ao seu alcance, sossegue. Sinestesia não é algo que tenha que ser tratado.
  3. Converse e promova a sinestesia da sua criança

Tente descobrir aos poucos quais os tipos de sinestesia da criança. Se houverem variações, não há problema. Pesquisadores chegam à conclusão que na infância a sinestesia pode ter algumas variações e/ou a criança ainda não as percebe com tanta clareza.

Treine de forma lúdica e agradável a sinestesia do seu filho. Venha para uma consulta para aprender formas de como exercitar e apoiar sua criança e sua sinestesia. Que esta habilidade transforme-se em ferramenta para seu bem-estar e sucesso!

Simone Clemens Pedagoga de Talentos e Especialista em Coaching de Superdotação e Supersensibilidade pelo Conselho Europeu de Altas Habilidades da Universidade de Münster – Alemanha e IFLW, pedagoga Montessori Internacional, Bacharel de música pela UNESP e fundadora da EducarSi.

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