Montessori: ensinar uma criança a desenhar: Sim ou não?

Os poucos e modestos traços que sei desenhar e pintar é graças a desenhistas profissionais que pintavam a minha frente já dentro da minha casa.

Graças a eles aprendi a pintar de formas diferentes com o lápis, a gostar de combinar cores e sombras e a traçar algo. Agradeço-os profundamente por isso. Já que sou desprovida desse talento por natureza, pelo menos o saber pintar de forma diferenciada, a estar atenta a cores fez diferença positiva em minha vida muitas vezes.

Há uma crença que de vez em quando vem à tona que diz: “não se deve desenhar para uma criança” – Cuidado: muitas pessoas confundem e distorcem tudo.

“A criatividade vem do conhecimento do mundo concreto”

Maria Montessori

Aprende-se no mundo concreto e usa-se o conhecimento adquirido no processo de desenvolvimento da criatividade. Aprende-se cores, materiais, técnicas. Experimenta-se, amplia-se, desenvolve-se partindo do concreto para o abstrato.

A imaginação nasce do conhecimento e ampliação do mundo concreto.

Em outras palavras mais práticas: Mostre! Continuem a inspirar e a mostrar seus conhecimentos a seus filhos 🙂

Mostre para inspirar, não para cobrir currículo escolar! Apresente o conhecimento porque é gostoso, porque é belo, porque dá prazer.

Tudo se aprende nessa vida, porque desenho seria diferente? Inclusive a estética (e desenho faz parte da estética) aprende-se culturalmente – o que é bonito e correto para um povo não é necessariamente para outro. A estética também nesse contexto, muda de acordo com a época – cada época tem seus conceitos do que é belo, de como “há de ser”. É inevitável – o ser humano acompanha e constrói a construção da estética do seu tempo.

Tudo se aprende. Se podemos aprender a comer com a ajuda de um garfo e de uma faca, também podemos aprender a pegar em um pincel e pintar à tinta, pode-se aprender a pegar em um lápis para pintar no papel.

A única mensagem correta por trás dessa crendice e idiota de que “não se deve desenhar para uma criança”, é que

deve-se deixar espaço e tempo para a criança praticar seus próprios traços e experiências – isso não quer dizer que ela tenha de ser proibida de observar!!! –

Você como adulto não deve pegar na mão da sua criança e força-la a desenhar algo – Entenderam a diferença? – Disso a ser proibido a desenhar em frente a uma criança, a mostrar-lhe como pode ser feito, é completamente diferente!

Você adulto não deve julgar as tentativas de expressão de uma criança!

Ah isso sim! Você adulto não deve dizer se a tentativa de desenho da sua criança está feia ou que está errado aqui e acolá!

Deixe-a livre a tentar e se aprimorar sozinha. A menos…a menos que ela peça e também assim depende da situação. Tenha bom senso.

Há uma diferença entre uma dependência constante da opinião e aprovação de outra pessoa e o responder de uma pergunta ou mostrar o que lhe foi pedido.

A primeira tira a autonomia e destrói a autoconfiança da criança, a segunda apoia e incentiva, aumenta o elo emocional de confiança entre quem ensina e quem aprende e aumenta a autoconfiança e o gosto em aprimorar-se.

Influencie! Influencie positivamente. Mostre as cores, deixe que a criança as escolha e que as combine como quiser. Apresente tintas, deixe que se pinte, que se lambuze! Relacione com cheiros e emoções: há cores frias, cores quentes, cores que lembram cheiros, paisagens, momentos alegres, tristes…deixe que se conectem neurônios de diferentes partes do cérebro. Relacione com músicas. A música tem um poder especial no desenvolvimento cognitivo-emocional do ser humano.

Mostre sombras, mostre luzes! Mostre o poder da perspectiva no desenho. Se possível, mostre como pode concretizá-los. Lembro-me que fiquei fascinada a primeira vez quando me mostraram a técnica de desenho com um “ponto de fuga”. Mostre como fazer sombras com diversos tipos de lápis…coloridos e à carvão. Mostre que se pode sombrear com lápis-carvão e algodão…mostre recursos!

Apresente recursos e ensine técnicas para que a criança possa ter a escolha de expressar-se na arte da forma como quiser.

A criatividade vem do conhecimento do mundo concreto
Maria Montessori

Mosaicos – mostre como se faz: papeizinhos rasgados bem pequeninos colados a formar uma figura – ou cores… e se os cortarmos com tesoura haverá um efeito distinto? Prove…mostre que há possibilidades. Muitas possibilidades – deixe que se pratique as possibilidades, os diferentes tipos de técnicas. Deixe a escolha.

Mostre que há papel, madeira, metal, areia, vidro…tudo! Tudo pode-se cortar, dobrar, rasgar, amassar – tudo pode tornar formas de expressão!

Mostre que pode-se desenhar, pintar em cima da mesa da cozinha, na praça ao ar livre, na escola, na praia, no carro, em paredes (discuta em quais paredes :))

Deixe essa gente idiota, que nunca nem chegou perto da arte falar no vácuo! Arte é para ser vivida, experimentada e aprendida sim! Coordenação motora é para ser treinada. E há forma mais prazeirosa do que através da arte?

Arte se desenvolve e se aprende, num círculo infinito.

( Simone Clemens – pedagoga montessoriana – musicista profissional formada pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e cresceu em casa de artistas desenhistas profissionais )

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